MINÚSCULO FRAGMENTO DE UMA BIOGRAFIA #1

Ernesto disse a Liz:

- Eu vou voltar. Estou deixando a minha escova de dentes e o meu cabide. Eu vou voltar.

E com um beijo ele secou a lágrima valente que insistiu em rolar no rosto dela, contrariando toda força feita para que isso não acontecesse.

- Confia em mim, namorada! É só um "até logo".

E não foi. O que prometia ser um breve hiato se cumpriu separação.

E nunca mais ele a acarinhou com calma enquanto ela estava cheia de cólicas. Ele nunca mais cozinhou para ela até o gás acabar (antes da comida ficar pronta). Ele nunca mais a acompanhou num show de quem não havia sequer ouvido falar e tirado milhares fotos para ela. E nunca mais ele empurrou o carro dela, quando uma pane abateu o veículo e a motorista. E ela nunca mais ouviu aqueles "Ss" com som de "x".

E Liz, cansada de esperar e de rezar por uma explicação, jogou a escova de dentes fora.

Mas ela também nunca mais precisou daquelas coisas. Ela precisava dele, mas não para isso. Ela queria que ele botasse um ponto final ao que ele havia conferido reticências por covardia. E era isso que ela precisava dele: que Neto confessasse ter sido covarde e que mentira, mesmo que ele não soubesse explicar o motivo. Isso lhe daria paz. 

Era isso que ela queria: a paz de saber que mais uma vez ela não fez nada de errado, e poderia sepultar essa história junto às outras que se encerraram com as lições compreendidas e internalizadas.

Mas essa ainda está moribunda. As vezes volta à memória quando ela está em desequilíbrio e em insegurança, o que a deixa mais desequilibrada e mais insegura.

E ainda assim Liz segue adiante, procurando outros sorrisos e abrindo um espaço para uma nova escova de dentes ou apenas para o lado da cama do canto da parede.

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